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domingo, 2 de junho de 2013

Coesão e Coerência

Coesão


Num texto, certos elementos comparam-se 
Aos fios que costuram-se entre si as partes de uma 
vestimenta. Cortados esses fios, o que sobra
São simples pedaços de pano.
Platão e Florin. Lições de texto: leitura e redação.
São Paulo: Ática, 1998.

Entre as Conjunções

O Verbo Ser levou Emília para a Casa das Conjunções, que ficava ao lado. 
— As Conjunções — explicou ele — também ligam; mas em vez de ligarem simples palavras (como fazem as Preposições) ligam grupos de palavras, ou isso a que os gramáticos chamam Oração. 
— Oração não é reza? — perguntou Emília. 
— E reza e é também uma frase que forma sentido perfeito. Quando alguém diz: Emília é uma boneca, está formando uma Oração curtinha. Mas há frases muito compridas, compostas de várias Orações; nesse caso é preciso ligar as Orações entre si por meio das Conjunções. Não fazendo isso, a frase cai aos pedaços. 
— Compreendo — disse Emília. — Se eu digo... — e engasgou. 
— Espere — advertiu Ser. — Se você diz: A água é mole e a pedra é dura, você está amarrando suas Orações diversas com o barbantinho da Conjunção E.
Emília viu na Casa das Conjunções dois armários, um com as Conjunções Coordenativas e outro com as Conjunções Subordinativas.
No armário das Coordenativas encontrou muitas conhecidas suas, como E, Também, Então, Bem Como, Que, Ou, Mas, Porém, Todavia, Senão, Somente, Pois Bem, Ora, Aliás...
— Como são numerosas! — comentou a boneca. — Nunca supus que fosse necessário tanta variedade de fios para amarrar as Senhoras Orações. 
— Os homens costumam amarrar as Orações de tantos modos diferentes, que todas essas cordinhas se tornam necessárias. 
Emília ainda viu lá Logo, Pois, Portanto, Assim, Por Isso, Daí, Ou, Isto É, Por Exemplo, e muitas mais. 
No segundo armário estavam as Conjunções Subordinativas, que ligam as Orações dum modo especial, escravizando uma à outra. Eram igualmente abundantíssimas, e Emília notou as seguintes: Quando, Apenas, Como, Enquanto, Desde Que, Logo Que, Até Que, Assim Que, Ao Passo Que, Se, Salvo, Exceto, Sem Que, Porque, Visto Que, De Modo Que, Para Que, Segundo, Conforme, Embora e outras. 
— Xi. . . São tantas que já estão me enjoando — disse Emília, fazendo um muxoxo. — Chega de Casa de Fios. Vamos ver outra coisa. 
[...]
Monteiro Lobato, Emília no País da Gramática.
São Paulo, Brasiliense.




A coesão garante ao texto duas qualidades:
  • Determina como cada parte faz referência a outras. É como as pegadas que direcionam o faro do leitor, ajudando-o a lembrar-se do que já foi dito e a criar certa expectativa em relação ao que ainda esta por dizer. Nesse caso, estamos falando da coesão referencial.
  • Dá direção e sentido às ideias do texto, deixando clara a articulação entre elas, ao mesmo tempo em que cria relações de contraposição, conjunção, adição, conclusão, concessão e muitas outras. Aqui, falamos da coesão estrutural. A coesão estrutural opera como os joelhos e os cotovelos: são as juntas do texto.

Coesão referencial
Tem muito a ver com o uso de alguns pronomes pessoais como eles(s), ela(s), a(s), o(s); pronomes demonstrativos como esse(s), este(s), aquele(s) e suas variantes; e alguns pronomes relativos como que, o qual, cujo, onde.


Coerência
Falar em coerência significa falar na unidade de sentido no texto, o que é conseguido quando relacionamos os significados de cada uma de suas partes.
Além dos enlaces internos, a coerência textual também prevê adequação das informações colocadas no texto, ou seja, a criação de um diálogo entre o texto e o contexto também representa um fator de coerência. Assim, podemos falar em coerência interna e coerência externa.
A coesão é certamente fundamental para a construção do todo textual, mas ela, sozinha, não é capaz de produzir um texto. Veja um exemplo curioso:

João vai à padaria. A padaria é feita de tijolos. Os tijolos são caríssimos. Também os mísseis são caríssimos. Os mísseis são lançados no espaço. Segundo a Teoria da Relatividade, o espaço é curvo. A Geometria Rimaniana dá conta desse fenômeno.



Veja que, apesar de cada uma das frases fazer alguma referência a outra parte do conjunto, o que mostra coesão, o texto não tem nenhum sentido. Dessa forma, ter sentido é imprescindível na produção de um texto que deseja efetivamente comunicar algo.

Texto por Camila Aparecida
Arte por Jéssica Oliveira

Coesão e Coerência Textual

Na construção de um texto, assim como na fala, usamos mecanismos para garantir ao interlocutor a compreensão do que é dito, ou lido.

Esses mecanismos linguísticos que estabelecem a conectividade e retomada do que foi escrito ou dito são os referentes textuais e buscam garantir a coesão textual para que haja coerência, não só entre os elementos que compõem a oração, como também entre a sequência de orações dentro do texto.

Essa coesão também pode muitas vezes se dar de modo implícito, baseada em conhecimentos anteriores que os participantes do processo têm com o tema. Por exemplo, o uso de uma determinada sigla, que para o público a quem se dirige deveria ser de conhecimento geral, evita que se lance mão de repetições inúteis.

Numa linguagem figurada, a coesão é uma linha imaginária - composta de termos e expressões - que une os diversos elementos do texto e busca estabelecer relações de sentido entre eles.

Dessa forma, com o emprego de diferentes procedimentos, sejam lexicais (repetição, substituição, associação), sejam gramaticais (emprego de pronomes, conjunções, numerais, elipses), constroem-se frases, orações, períodos, que irão apresentar o contexto – decorre daí a coerência textual.

Um texto incoerente é o que carece de sentido ou o apresenta de forma contraditória. Muitas vezes essa incoerência é resultado do mau uso daqueles elementos de coesão textual. Na organização de períodos e de parágrafos, um erro no emprego dos mecanismos gramaticais e lexicais prejudica o entendimento do texto. Construído com os elementos corretos, confere-se a ele uma unidade formal.



Nas palavras do mestre Evanildo Bechara, “o enunciado não se constrói com  um amontoado de palavras e orações. Elas se organizam segundo princípios gerais de dependência e independência sintática e semântica, recobertos por unidades melódicas e rítmicas que sedimentam estes princípios”.

Vejamos alguns exemplos de falta de coerência textual:

"No verão passado, quando estivemos na capital do Ceará, Fortaleza, não pudemos aproveitar a praia, pois o frio era tanto que chegou a nevar"

“Estão derrubando muitas árvores e por isso a floresta consegue sobreviver.”

“Todo mundo viu o mico-leão, mas eu não ouvi o sabiá cantar.”

“Todo mundo destrói a natureza menos todo mundo.”

“Podemos notar claramente que a falta de recursos para a escola pública é um problema no país. O governo prometeu e cumpriu: trouxe várias melhorias na educação e fez com que os alunos que estavam fora da escola voltassem a frequentá-la. Isso trouxe várias melhoras para o país.”



A falta de coerência em um texto é facilmente detectada por um falante da língua, mas não é tão simples notá-la quando é você quem escreve. A coerência é a correspondência entre as ideias do texto de forma lógica.

Quando o entendimento de determinado texto é comprometido, imediatamente alguém pode afirmar que ele está incoerente. Na maioria das vezes esta pessoa está certa ao fazer esta afirmação, mas não podemos achar que as dificuldades de organização das idéias se resumem à coerência ou a coesão. É certo que elas facilitam bastante esse processo, mas não são suficientes para resolver todos os problemas. O que nos resta é nos atualizarmos constantemente para podermos ter um maior domínio do processo de produção textual.

Exemplo de texto coerente:

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora? 

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Carlos Drummond de Andrade


Observe como, ao longo das estrofes, há uma sucessão lógica de fatos que nos dão a exata ideia do processo de desagregação social do qual José é vítima. A esse enquadramento dá-se o nome de coerência textual.

Texto por Daniel Santos
Arte por Jéssica Oliveira

Coerência

Coerência, numa situação comunicativa, é o que dá sentido para o texto. Em um texto coerente temos, a inteligibilidade, ou seja, a possibilidade de um texto ser compreendido; a interpretabilidade, onde temos a possibilidade de um texto ser interpretado; e por fim a capacidade do receptor calcular o sentido do texto e o processo cooperativo entre o produtor e o destinatário.

Nos textos coerentes temos ainda:

• A Inferência, ou seja, quando vamos além do que o texto explicita.
Para melhor elucidação da inferência, citaremos como exemplo um comercial onde jovens estão em uma situação de paquera.
Imagine que um dos jovens possui em uma de suas mãos um copo com um líquido escuro. Ao vermos o líquido escuro inferimos que o líquido escuro possa ser o refrigerante Coca-Cola, por exemplo. Porém ao mesmo tempo, outro jovem mostra uma garrafa de Guaraná e consegue conquistar a jovem, objeto de desejo.
No exemplo acima o líquido escuro lembra a Coca-Cola, e quando vemos que o rapaz que porta o Guaraná é quem fica com a garota, inferimos que o comercial pretende mostrar que o Guaraná é melhor que o refrigerante Coca-Cola.


• Intertextualidade, ou seja, quando recorremos ao conhecimento prévio de outros textos, conteúdo ou forma.
Para melhor elucidação da intertextualidade citaremos como exemplo algumas imagens do desenho animado dos Simpsons:

Nesta imagem, vemos o personagem Bart, dentro de uma piscina, nu, atrás de uma nota de dinheiro.


Ocorre que tal imagem é uma intertextualidade da capa de um CD do Nirvana.


Para quem não conhece Rock, por exemplo, a única imagem pensada será justamente a imagem do Bart nadando nu, atrás de dinheiro, porém, quem conhece a banda Nirvana certamente lembrará da capa do CD, onde um bebê completamente nu supostamente nada atrás de uma nota de dinheiro.

Ainda usando o desenho animado dos Simpsons:


Nesta primeira imagem, vemos uma intertextualidade do filme do Batman de 1989, de Tim Burton, onde Bart se veste de "Bartman" na convenção de gibis e fala "Sou o Bartman". A intertextualidade ocorre quando o leitor associa com o filme de 1989, onde o Batman pega o coringa e provem a frase "Sou o Batman".


Nesta imagem Maggie vira a cabeça em 180 graus, para os nascidos entre a década de 80 e 90, a imagem é facilmente associada com o filme "O Exorcista" de 1973, de William Friedkin, quando a jovem possuída vira sua cabeça em uma angulo de 360 graus completos ao ver sua mãe entrar no quarto.


Por fim, para que não restem dúvidas da intertextualidade, mencionaremos a imagem acima, onde os Simpsons permanecem em uma casa e tentam matar uns aos outros. Essas cenas remetem ao filme "O Iluminado" de 1980, de Stanley Kubrick.

Diante dos episódios mencionados fica é claro que a intertextualidade nada mais é do que o prévio conhecimento do leitor sobre determinado assunto, possibilitando-o assim melhor entendimento e trazendo coerência para leitura de um texto ou visualização de uma imagem.

• Estratégias Cognitivas, ou seja, aquelas que dizem respeito ao uso do conhecimento de mundo, partilhado, contexto sócio cultural.

Para melhor elucidação das estratégias cognitivas ilustramos com o desenho abaixo:


Para aqueles que não possuem conhecimento sócio-cultural, ou de mundo, a imagem retrata apenas um homem com roupa militar com uma foice em suas mãos. Porém, aqueles que leem um pouco mais sobre o mundo certamente irão associar diversas informações na imagem, como por exemplo, a boina usada pela caveira; veja que na boina existe o símbolo da bandeira do Egito, não obstante, a caveira está usando o uniforme militar egípcio. Ora, para aqueles que possuem conhecimento da realidade atual do Egito certamente será fácil associar que tal desenho refere-se a repressão dos militares aos manifestantes que saem às ruas no Egito e exigem a Vitória de Mohamed Morsi, já que mesmo após as eleições serem realizadas não houve manifestação sobre o novo Presidente eleito pelo povo.

Outro exemplo que citaremo será o MOBRAL. Para que a pessoa tenha conhecimento sobre o que é MOBRAL é necessário ter conhecimento de um pouco da história brasileira. O MOBRAL foi um movimento brasileiro de alfabetização criado em 1977 pelo regime militar, e tinha como objetivo a alfabetização de jovens e adultos. Desta forma, um jovem com 15 anos, ao ler em um cartaz os seguintes dizeres: “Para uma melhor vida vá ao MOBRAL” certamente não entenderá o significado de MOBRAL, não vendo coerência alguma para aquele texto, uma vez que tal jovem não possui conhecimento sócio-cultural sobre o que foi o movimento.





Texto por Iole Pontes
Arte por Jéssica Oliveira