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domingo, 2 de junho de 2013

Coesão e Coerência

Coesão


Num texto, certos elementos comparam-se 
Aos fios que costuram-se entre si as partes de uma 
vestimenta. Cortados esses fios, o que sobra
São simples pedaços de pano.
Platão e Florin. Lições de texto: leitura e redação.
São Paulo: Ática, 1998.

Entre as Conjunções

O Verbo Ser levou Emília para a Casa das Conjunções, que ficava ao lado. 
— As Conjunções — explicou ele — também ligam; mas em vez de ligarem simples palavras (como fazem as Preposições) ligam grupos de palavras, ou isso a que os gramáticos chamam Oração
— Oração não é reza? — perguntou Emília. 
— E reza e é também uma frase que forma sentido perfeito. Quando alguém diz: Emília é uma boneca, está formando uma Oração curtinha. Mas há frases muito compridas, compostas de várias Orações; nesse caso é preciso ligar as Orações entre si por meio das Conjunções. Não fazendo isso, a frase cai aos pedaços. 
— Compreendo — disse Emília. — Se eu digo... — e engasgou. 
— Espere — advertiu Ser. — Se você diz: A água é mole e a pedra é dura, você está amarrando suas Orações diversas com o barbantinho da Conjunção E.
Emília viu na Casa das Conjunções dois armários, um com as Conjunções Coordenativas e outro com as Conjunções Subordinativas.
No armário das Coordenativas encontrou muitas conhecidas suas, como ETambémEntãoBem ComoQueOuMasPorémTodaviaSenãoSomentePois BemOraAliás...
— Como são numerosas! — comentou a boneca. — Nunca supus que fosse necessário tanta variedade de fios para amarrar as Senhoras Orações. 
— Os homens costumam amarrar as Orações de tantos modos diferentes, que todas essas cordinhas se tornam necessárias. 
Emília ainda viu lá LogoPoisPortantoAssimPor IssoDaíOuIsto ÉPor Exemplo, e muitas mais. 
No segundo armário estavam as Conjunções Subordinativas, que ligam as Orações dum modo especial, escravizando uma à outra. Eram igualmente abundantíssimas, e Emília notou as seguintes: QuandoApenasComoEnquantoDesde QueLogo QueAté QueAssim QueAo Passo QueSeSalvoExcetoSem QuePorqueVisto QueDe Modo QuePara QueSegundoConformeEmbora e outras. 
— Xi. . . São tantas que já estão me enjoando — disse Emília, fazendo um muxoxo. — Chega de Casa de Fios. Vamos ver outra coisa. 
[...]
Monteiro Lobato, Emília no País da Gramática.
São Paulo, Brasiliense.




A coesão garante ao texto duas qualidades:
  • Determina como cada parte faz referência a outras. É como as pegadas que direcionam o faro do leitor, ajudando-o a lembrar-se do que já foi dito e a criar certa expectativa em relação ao que ainda esta por dizer. Nesse caso, estamos falando da coesão referencial.
  • Dá direção e sentido às ideias do texto, deixando clara a articulação entre elas, ao mesmo tempo em que cria relações de contraposição, conjunção, adição, conclusão, concessão e muitas outras. Aqui, falamos da coesão estrutural. A coesão estrutural opera como os joelhos e os cotovelos: são as juntas do texto.

Coesão referencial
Tem muito a ver com o uso de alguns pronomes pessoais como eles(s), ela(s), a(s), o(s); pronomes demonstrativos como esse(s), este(s), aquele(s) e suas variantes; e alguns pronomes relativos como que, o qual, cujo, onde.


Coerência
Falar em coerência significa falar na unidade de sentido no texto, o que é conseguido quando relacionamos os significados de cada uma de suas partes.
Além dos enlaces internos, a coerência textual também prevê adequação das informações colocadas no texto, ou seja, a criação de um diálogo entre o texto e o contexto também representa um fator de coerência. Assim, podemos falar em coerência interna e coerência externa.
A coesão é certamente fundamental para a construção do todo textual, mas ela, sozinha, não é capaz de produzir um texto. Veja um exemplo curioso:

João vai à padaria. A padaria é feita de tijolos. Os tijolos são caríssimos. Também os mísseis são caríssimos. Os mísseis são lançados no espaço. Segundo a Teoria da Relatividade, o espaço é curvo. A Geometria Rimaniana dá conta desse fenômeno.



Veja que, apesar de cada uma das frases fazer alguma referência a outra parte do conjunto, o que mostra coesão, o texto não tem nenhum sentido. Dessa forma, ter sentido é imprescindível na produção de um texto que deseja efetivamente comunicar algo.

Texto por Camila Aparecida
Arte por Jéssica Oliveira

Coesão e Coerência Textual

Na construção de um texto, assim como na fala, usamos mecanismos para garantir ao interlocutor a compreensão do que é dito, ou lido.

Esses mecanismos linguísticos que estabelecem a conectividade e retomada do que foi escrito ou dito são os referentes textuais e buscam garantir a coesão textual para que haja coerência, não só entre os elementos que compõem a oração, como também entre a sequência de orações dentro do texto.

Essa coesão também pode muitas vezes se dar de modo implícito, baseada em conhecimentos anteriores que os participantes do processo têm com o tema. Por exemplo, o uso de uma determinada sigla, que para o público a quem se dirige deveria ser de conhecimento geral, evita que se lance mão de repetições inúteis.

Numa linguagem figurada, a coesão é uma linha imaginária - composta de termos e expressões - que une os diversos elementos do texto e busca estabelecer relações de sentido entre eles.

Dessa forma, com o emprego de diferentes procedimentos, sejam lexicais (repetição, substituição, associação), sejam gramaticais (emprego de pronomes, conjunções, numerais, elipses), constroem-se frases, orações, períodos, que irão apresentar o contexto – decorre daí a coerência textual.

Um texto incoerente é o que carece de sentido ou o apresenta de forma contraditória. Muitas vezes essa incoerência é resultado do mau uso daqueles elementos de coesão textual. Na organização de períodos e de parágrafos, um erro no emprego dos mecanismos gramaticais e lexicais prejudica o entendimento do texto. Construído com os elementos corretos, confere-se a ele uma unidade formal.



Nas palavras do mestre Evanildo Bechara, “o enunciado não se constrói com  um amontoado de palavras e orações. Elas se organizam segundo princípios gerais de dependência e independência sintática e semântica, recobertos por unidades melódicas e rítmicas que sedimentam estes princípios”.

Vejamos alguns exemplos de falta de coerência textual:

"No verão passado, quando estivemos na capital do Ceará, Fortaleza, não pudemos aproveitar a praia, pois o frio era tanto que chegou a nevar"

“Estão derrubando muitas árvores e por isso a floresta consegue sobreviver.”

“Todo mundo viu o mico-leão, mas eu não ouvi o sabiá cantar.”

“Todo mundo destrói a natureza menos todo mundo.”

“Podemos notar claramente que a falta de recursos para a escola pública é um problema no país. O governo prometeu e cumpriu: trouxe várias melhorias na educação e fez com que os alunos que estavam fora da escola voltassem a frequentá-la. Isso trouxe várias melhoras para o país.”



A falta de coerência em um texto é facilmente detectada por um falante da língua, mas não é tão simples notá-la quando é você quem escreve. A coerência é a correspondência entre as ideias do texto de forma lógica.

Quando o entendimento de determinado texto é comprometido, imediatamente alguém pode afirmar que ele está incoerente. Na maioria das vezes esta pessoa está certa ao fazer esta afirmação, mas não podemos achar que as dificuldades de organização das idéias se resumem à coerência ou a coesão. É certo que elas facilitam bastante esse processo, mas não são suficientes para resolver todos os problemas. O que nos resta é nos atualizarmos constantemente para podermos ter um maior domínio do processo de produção textual.

Exemplo de texto coerente:

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora? 

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Carlos Drummond de Andrade


Observe como, ao longo das estrofes, há uma sucessão lógica de fatos que nos dão a exata ideia do processo de desagregação social do qual José é vítima. A esse enquadramento dá-se o nome de coerência textual.

Texto por Daniel Santos
Arte por Jéssica Oliveira

Os Tipos de Coesão Textual

As relações coesivas são classificadas de acordo com a função que exercem no texto. A seguir explicaremos sobre os tipos de mecanismos coesivos: referênciasubstituiçãoelisãoconjunção e coesão lexical.

Referência

A coesão referencial acontecesse quando se usa itens que não são interpretados pelo seu próprio sentido, mas sim por sua função de referenciação a outro item presente ou não no texto.

Você deixou sua HQ do Batman aqui.

Neste primeiro exemplo, a palavra aqui refere-se a algo que não está explícito no texto, mas sim a algo que só sabemos de acordo com a situação comunicativa. Classificamos isso como referência endofórica.



Já a referência exofórica acontece quando o referente está presente no texto, como é possível ver no exemplo seguinte:

Ele é um super-herói dos quadrinhos da editora americana DC Comics. Batman protege Gotham City do mal. Ela é inspirada em grandes cidades do mundo com altos índices de criminalidade.

Neste mesmo exemplo podemos observar que há duas referenciações que se distinguem pela sua posição em relação ao item principal no texto.

Os termos Ele (pronome referencial) e Batman (termo principal) formam uma referência exofórica catáfora, pois o pronome "ele" refere-se a um termo que ainda será citado no texto.



Enquanto isso, os termos Gotham City (termo principal) e Ela (pronome referencial) formam uma referência exofórica anáfora, já que o pronome "ele" refere-se a um termo que já foi citado no texto.



Substituição

Substituição de um termo através de uma aproximação semântica, ou seja, de significado e que não recupera totalmente o item referente, já que não há equivalência de sentido entre as palavras.

Coringa estava raivoso. O vilão, enfurecido, tentou assassinar Batman.

Os termos raivoso e enfurecido (clique nas palavras para acessá-las no dicionário), possuem significados aproximados, mas não exatamente iguais, sobre ações ou modos de estar violentos ou agressivos. Digamos que o sentimento de fúria é mais intenso que o de raiva.



Elisão

A elisão, também denominada de anáfora zero, recupera um item em um espaço vazio. Por exemplo:

Mulher-Gato gosta de comer morango; Batman, pera.

Perceba que no exemplo evitamos repetir o termo "gosta de comer" através do uso da pontuação, produzindo um espaço vazio no texto que o leitor consegue recuperar. Se esse mecanismo não tivesse sido usado, a oração ficaria: "Mulher-Gato gosta de comer morango. Batman gosta de comer pera."



Conjunção

A coesão por conjunção ocorre quando estabelecemos relações significativas entre itens e orações através do uso de conectores como advérbios, preposições e, principalmente, conjunções. Essas conexões podem exprimir adição, causa, adversidade, tempo, condição, entre outros.

Alfred trouxe chá e biscoitos. (Função de adição)

O nome do vilão é Charada porque ele gosta de criar quebra-cabeças e enigmas. (Função de causa)



Robin juntou-se a Batman quando sua família foi morta. (Função de tempo)

Seline Kyle é a Mulher-Gato, mas seu animal favorito é o cachorro. (Função de adversidade)



Coesão Lexical

Retomada literal ou parcial de palavras ou termos, que pode acontecer de diversos modos:

Repetição do mesmo item lexical, quando a palavra é retomada literalmente.

Duas-Caras era promotor público de Gotham City. Duas-Caras enlouqueceu quando jogaram ácido em uma parte de seu rosto.





Expressões nominais definidas, quando referimos a uma exata mesma coisa usando nomes diferentes. Não é um conhecimento linguísticos, mas de mundo.

Batman é o herói que a cidade merece, mas o homem-morcego não é o que a cidade precisa agora.




Hiperônimo é quando o primeiro elemento possui uma relação de todo-parte com o segundo elemento, enquanto o Hipônimo é o contrário. Vamos montar um exemplo usando as palavras batmóvel e veículo. O termo veículo é mais genérico, então é o todo, já o termo batmóvel é mais específico, então é a parte.

veículo estava estacionado na garagem da mansão. O batmóvel estava bem sujo. (Relação de todo-parte - Hiperônimo)

batmóvel estava estacionado na garagem da mansão. O veículo estava bem sujo. (Relação de parte-todo - Hipônimo)


Texto por Jéssica Oliveira
Arte por Jéssica Oliveira

Coerência

Coerência, numa situação comunicativa, é o que dá sentido para o texto. Em um texto coerente temos, a inteligibilidade, ou seja, a possibilidade de um texto ser compreendido; a interpretabilidade, onde temos a possibilidade de um texto ser interpretado; e por fim a capacidade do receptor calcular o sentido do texto e o processo cooperativo entre o produtor e o destinatário.

Nos textos coerentes temos ainda:

• A Inferência, ou seja, quando vamos além do que o texto explicita.
Para melhor elucidação da inferência, citaremos como exemplo um comercial onde jovens estão em uma situação de paquera.
Imagine que um dos jovens possui em uma de suas mãos um copo com um líquido escuro. Ao vermos o líquido escuro inferimos que o líquido escuro possa ser o refrigerante Coca-Cola, por exemplo. Porém ao mesmo tempo, outro jovem mostra uma garrafa de Guaraná e consegue conquistar a jovem, objeto de desejo.
No exemplo acima o líquido escuro lembra a Coca-Cola, e quando vemos que o rapaz que porta o Guaraná é quem fica com a garota, inferimos que o comercial pretende mostrar que o Guaraná é melhor que o refrigerante Coca-Cola.


• Intertextualidade, ou seja, quando recorremos ao conhecimento prévio de outros textos, conteúdo ou forma.
Para melhor elucidação da intertextualidade citaremos como exemplo algumas imagens do desenho animado dos Simpsons:

Nesta imagem, vemos o personagem Bart, dentro de uma piscina, nu, atrás de uma nota de dinheiro.


Ocorre que tal imagem é uma intertextualidade da capa de um CD do Nirvana.


Para quem não conhece Rock, por exemplo, a única imagem pensada será justamente a imagem do Bart nadando nu, atrás de dinheiro, porém, quem conhece a banda Nirvana certamente lembrará da capa do CD, onde um bebê completamente nu supostamente nada atrás de uma nota de dinheiro.

Ainda usando o desenho animado dos Simpsons:


Nesta primeira imagem, vemos uma intertextualidade do filme do Batman de 1989, de Tim Burton, onde Bart se veste de "Bartman" na convenção de gibis e fala "Sou o Bartman". A intertextualidade ocorre quando o leitor associa com o filme de 1989, onde o Batman pega o coringa e provem a frase "Sou o Batman".


Nesta imagem Maggie vira a cabeça em 180 graus, para os nascidos entre a década de 80 e 90, a imagem é facilmente associada com o filme "O Exorcista" de 1973, de William Friedkin, quando a jovem possuída vira sua cabeça em uma angulo de 360 graus completos ao ver sua mãe entrar no quarto.


Por fim, para que não restem dúvidas da intertextualidade, mencionaremos a imagem acima, onde os Simpsons permanecem em uma casa e tentam matar uns aos outros. Essas cenas remetem ao filme "O Iluminado" de 1980, de Stanley Kubrick.

Diante dos episódios mencionados fica é claro que a intertextualidade nada mais é do que o prévio conhecimento do leitor sobre determinado assunto, possibilitando-o assim melhor entendimento e trazendo coerência para leitura de um texto ou visualização de uma imagem.

• Estratégias Cognitivas, ou seja, aquelas que dizem respeito ao uso do conhecimento de mundo, partilhado, contexto sócio cultural.

Para melhor elucidação das estratégias cognitivas ilustramos com o desenho abaixo:


Para aqueles que não possuem conhecimento sócio-cultural, ou de mundo, a imagem retrata apenas um homem com roupa militar com uma foice em suas mãos. Porém, aqueles que leem um pouco mais sobre o mundo certamente irão associar diversas informações na imagem, como por exemplo, a boina usada pela caveira; veja que na boina existe o símbolo da bandeira do Egito, não obstante, a caveira está usando o uniforme militar egípcio. Ora, para aqueles que possuem conhecimento da realidade atual do Egito certamente será fácil associar que tal desenho refere-se a repressão dos militares aos manifestantes que saem às ruas no Egito e exigem a Vitória de Mohamed Morsi, já que mesmo após as eleições serem realizadas não houve manifestação sobre o novo Presidente eleito pelo povo.

Outro exemplo que citaremo será o MOBRAL. Para que a pessoa tenha conhecimento sobre o que é MOBRAL é necessário ter conhecimento de um pouco da história brasileira. O MOBRAL foi um movimento brasileiro de alfabetização criado em 1977 pelo regime militar, e tinha como objetivo a alfabetização de jovens e adultos. Desta forma, um jovem com 15 anos, ao ler em um cartaz os seguintes dizeres: “Para uma melhor vida vá ao MOBRAL” certamente não entenderá o significado de MOBRAL, não vendo coerência alguma para aquele texto, uma vez que tal jovem não possui conhecimento sócio-cultural sobre o que foi o movimento.





Texto por Iole Pontes
Arte por Jéssica Oliveira

Análise da Crônica: Traição

Traição

10, maio. 7h05

Sexta-feira, o dia mais esperado para a maioria dos alunos do colégio, especialmente porque no dia seguinte haveria uma grande festa, a qual todos estavam muito ansiosos. Porém ainda havia mais um dia de aula e Fabiana como de costume estava atrasada para o primeiro horário, passava em passos apressados em direção à sala, até que avistou sua amiga Patrícia chorando em um canto do pátio, não pensou duas vezes e desviou-se de sua rota para saber o que ocorria com a menina.

– Pati, o que houve? – Perguntou Fabiana enquanto afagava os loiros cabelos da colega.

Sem dizer uma única palavra, Patrícia retirou do bolso um papel dobrado e entregou à amiga, que o leu rapidamente. Tratava-se de uma carta endereçada ao Rafael, namorado da loira. A bonita letra claramente feminina extenuava as qualidades do rapaz, discorria detalhadamente sobre os prazeres de estar ao seu lado e questionava quando largaria sua atual namorada.

– Não acredito que ele foi capaz de uma coisa dessas! – Disse Fabiana incrédula, enquanto devolvia a carta à colega.

– Nem eu. Notei que estava meio distante nos últimos dias, mas algo assim... – afundou o rosto entre as duas mãos e continuou a chorar. Fabiana sentou-se ao seu lado e abraçou-a.

– Não fique assim, ele não a merece! Amanhã teremos uma festa, todos vão estar lá, inclusive o Marcelo, que sempre gostou de você, sabe muito bem disso. Agora se levante e venha lavar o rosto, não seria nada bom se o Rafael te visse assim.

Um pouco hesitante, Patrícia se levantou e seguiu a amiga. Realmente não gostaria que o namorado a visse nesse estado, e o misto de raiva e tristeza que sentia a fazia de fato considerar a hipótese de dar uma chance ao Marcelo, e poderia fazer melhor, poderia fazer isso em frente ao Rafael, para que este sentisse o mesmo que ela sentia agora, a mesma dor, o mesmo sofrimento. O pensamento de certa forma fez bem a garota, realmente sentia que precisava se vingar.

11, maio. 18h50

Finalmente chegara a hora da festa. Rafael, um rapaz jovem de bonitos olhos azuis e cabelos negros, ajeitava apressadamente um pequeno buquê de flores que estava em cima da cômoda. Novamente olhou para seu quarto, parecia que estava tudo conforme planejara: as flores, o novo urso de pelúcia, os chocolates e o álbum de fotos, onde colocou em ordem cronológica praticamente todas as fotos que tinha com Patrícia desde o início do namoro, que hoje completava dois anos. Nunca fora muito bom com surpresas, mas dessa vez conseguiu guardar segredo, mesmo que para isso tenha sido obrigado a se afastar um pouco de sua namorada, mas tudo seria recompensado. Convencido que melhor que aquilo não poderia fazer, saiu de casa e foi para festa, onde encontraria a menina.

Chegou à festa quase às vinte horas, o local já estava começando a lotar de pessoas. Comprou uma bebida e saiu a procura de Patrícia. Não demorou muito para encontra-la, mas o que viu o deixou chocado. A loira estava aos beijos com outro rapaz, por um instante Rafael mal pôde se mexer, apenas ficou ali, olhando. Não sabia dizer se o que sentia era raiva, tristeza ou decepção, talvez todos juntos. Algum tempo depois, a menina se soltou do rapaz e viu seu namorado os olhando, teve uma sensação de vingança concluída, ao mesmo tempo em que sentia um imenso vazio. Rafael apenas abaixou a cabeça e retirou a aliança de compromisso do seu dedo, lançando-a na lixeira e deixando a festa em seguida. Patrícia sentiu um leve impulso de correr atrás dele e pedir-lhe perdão, porém seu orgulho jamais a permitiria tal ato. Sorriu tristemente para Marcelo, seu acompanhante.

– Não me sinto muito bem, vou para casa, me desculpe. – Deu-lhe um rápido beijo e foi embora, precisava ficar sozinha naquele momento.

Marcelo olhava a garota se distanciar, até que sentiu alguém tocar em seu ombro. Ao ver quem era, tirou do bolso uma nota de cinquenta reais e entregou para a pessoa.

– Parece que seu plano funcionou muito bem, Fabi!

– Eu te disse que daria tudo certo, ela é uma pessoa muito fácil de enganar. – Disse Fabiana sorrindo enquanto guardava o dinheiro. Seu celular começou a vibrar e o nome de Patrícia apareceu na tela. – Tenho que ir, minha “melhor amiga” me chama. Tenha uma boa festa. – A morena então deixou o local e foi consolar a menina a quem arruinara a noite.

Fim.




Análise

A) Referência:
Endofórica: anáfora

Exemplos para Fabiana: “sua”, “desviou-se”;
Exemplos para Patrícia: “abraçou-a”, “a”, “você”, “se”, “te”, “ela”, “encontra-la”, “seu”.
Exemplos para Rafael: “seu”, “sua”, “ele”, “este”, “o”.
Exemplos para Marcelo: “seu”, “deu-lhe”.

B) Substituição: 

Exemplos para Fabiana: “amiga”, “pessoa”, Fabi, morena.
Exemplos para Patrícia: “menina”, “Pati”, “colega”, “loira”, “namorada”, “garota”, “melhor amiga”.
Exemplos para Rafael: “namorado”, “rapaz”.
Exemplos para Marcelo: “rapaz”, “acompanhante”.

C) Elisão:

Exemplos para Fabiana: “ela passava em passos apressados em direção à sala”; “até que ela avistou”.
Exemplos para Patrícia: “Patrícia afundou o rosto entre as duas mãos e continuou a chorar”; “realmente ela não gostaria que o namorado a visse nesse estado”; “Ela deu-lhe um rápido beijo”.
Exemplos para Rafael: “Rafael Chegou à festa quase às vinte horas”; “Ele não demorou muito para encontra-la”.
Exemplos para Marcelo: “até que ele sentiu alguém tocar em seu ombro”

* Palavras em negrito são as que estão omitidas pelo espaço vazio na crônica.

D) Conjunção: 

“o misto de raiva e tristeza que sentia”; “as flores, o novo urso de pelúcia, os chocolates e o álbum de fotos”; “mesmo que para isso tenha sido obrigado a se afastar um pouco de sua namorada, mas tudo seria recompensado”.

E) Coesão lexical:
Repetição:

Exemplos para Fabiana:
"– Não acredito que ele foi capaz de uma coisa dessas! – Disse Fabiana incrédula,..."
"...afundou o rosto entre as duas mãos e continuou a chorar. Fabiana sentou-se ao seu lado e..."
"...Fabiana sorrindo enquanto guardava o dinheiro. Seu celular começou a vibrar e o nome de..."

Exemplos para Patrícia:
"horário, passava em passos apressados em direção à sala, até que avistou sua amiga Patrícia"
"Sem dizer uma única palavra, Patrícia retirou do bolso um papel dobrado e entregou à..."
"Um pouco hesitante, Patrícia se levantou e seguiu a amiga. Realmente não gostaria..."
"...cronológica praticamente todas as fotos que tinha com Patrícia desde o início do namoro, que..."
"...Comprou uma bebida e saiu a procura de Patrícia. Não demorou muito para encontra-la, mas o..."
"...seu dedo, lançando-a na lixeira e deixando a festa em seguida. Patrícia sentiu um leve impulso..."
"...Patrícia apareceu na tela. – Tenho que ir, minha “melhor amiga” me chama. Tenha uma boa..."

Exemplos para Rafael:
"...amiga, que o leu rapidamente. Tratava-se de uma carta endereçada ao Rafael, namorado da..."
"...venha lavar o rosto, não seria nada bom se o Rafael te visse assim."
"...isso em frente ao Rafael, para que este sentisse o mesmo que ela sentia agora, a mesma dor, o..."
"Finalmente chegara a hora da festa. Rafael, um rapaz jovem de bonitos olhos azuis e..."
"...que viu o deixou chocado. A loira estava aos beijos com outro rapaz, por um instante Rafael..."
"...sentia um imenso vazio. Rafael apenas abaixou a cabeça e retirou a aliança de compromisso do..."

Exemplos para Marcelo:
"...inclusive o Marcelo, que sempre gostou de você, sabe muito bem disso. Agora se levante e..."
"...considerar a hipótese de dar uma chance ao Marcelo, e poderia fazer melhor, poderia fazer..."
"...tristemente para Marcelo, seu acompanhante."
"Marcelo olhava a garota se distanciar, até que sentiu alguém tocar em seu ombro. Ao..."

Texto por Vanessa Passos
Arte por Jéssica Oliveira